Para João Dornas Filho

Blog do Acadêmico Geraldo F. Fonte Boa. O objetivo é tornar JOÃO DORNAS FILHO, patrono da Cadeira nº 14 da Academia de Letras de Pará de Minas, conhecido pela comunidade virtual

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Terra Blog

30.12.07

O CABELO HUMANO NA FEITIÇARIA

João Dornas Filho

Há em Minas Gerais um grande número de abusões e feitiçarias de origem africana que tem o cabelo como elemento principal da sua manipulação.

Do meu arquivo constam três peças desse gênero, que passarei a copiar como as colhi.

Existia em Ouro Preto uma formosa mundana que, tendo rendido a seu capricho todos os homens que desejava, viu o seu orgulho ferido pela esquivança de um apenas.

Ofendida por esse fracasso, a mundana, mancomunada com uma escrava, preparou a mandinga na forma de um bolo apetitoso e enviou-o, em nome de um amigo, ao insubmisso varão, que mal comido o quitute, se renderia incondicionalmente aos encantos da astuciosa mulher.

Mas, acontece que quem recebeu o presente foi a esposa do desejado amante que, desconfiando da procedência da bandeja, deu o bolo a comer a um cão do seu marido. E, devorado o manjar, esse cão, como que atraído por forças irresistíveis, partiu celeremente, seguido pela escrava da senhora, segundo recomendações desta, para saber o destino que tomara o animal.

Atingida a casa da mundana, o cão pôs-se a latir e a forçar a porta com impaciência. E a mundana, supondo tratar-se do homem que desejava, se apresenta toda orgulhoa para ver rendido o rebelde a seus pés, quando é violentamente cingida pelo animal que, erguido nas patas traseiras, a abraçava com o furor de um amante.

O bolo fora confeccionado com cabelo pubiano da mundana.

Esta outra foi colhida em Santa Bárbara:

Uma jovem desgraciosa se apaixonara por um rapaz, dono de uma tropa de muares que arranchava semanalmente na fazenda do seu pai.

Como o tropeiro, por desdém ou qualquer outro motivo, não tomasse conhecimento do interesse da moça, resolveu recorrer a um feitiço manipulado com alguns fios de cabelo do rapaz. Para isto, obteve, por intermédio de um empregado do tropeiro, a mecha desejada, alegando que era para ter uma lembrança do esquivo mancebo.

Recebida e preparada a mandinga, ficou a moça à espera dos resultados.

Uma noite é ela acordada por fortes pancadas na porta do seu quarto, acompanhadas de fortes berros e espirros. Aberta a porta, um bode grande e amarelo, ostentando uma longa barba loura, procurava refugiar-se nas suas saias. É que a mandinga fora feita com os cabelos da barba desse bode, insidiosamente fornecidos pelo empregado do tropeiro.

Esta é de Santa Luzia:

Uma moça se apaixonou por um arrieiro de tropa que não fazia caso dela. A pedido da namorada infeliz, alguém ficara de lhe arranjar uns fios de cabelo do arrieiro, mas, em vez disso, arranjou-lhe fios do couro que reveste a cangalha.

Feito o despacho, começa a cangalha a dar pinotes em direção da casa da moça, onde estacou e só perdeu o "encanto" quando a rapariga deitou no fogo o despacho.

A versão que recolhi em Sabará é a de que, tendo chegado à cidade, nos tempos coloniais, um ouvidor jovem e belo, não tardou que por ele se interessasse uma certa donzela, talvez já impaciente de arranjar casamento. E como o juiz não se movesse por força dos ardis costumeiros, não titubeou ela em lançar mão da mandinga dos cabelos. Para isto, tentou peitar o escravo do senhor, para conseguir uns fios de barba quando ele se barbeasse.

O fiel escravo contou ao moço o sucedido e combinou-se que se levasse cabelo raspado de um surrão que o amo possuía.

Manipulado o despacho, é a moça acordada certa noite com fortes pancadas na porta. Levanta-se com sofreguidão e verifica, antes de desmaiar para falecer no dia seguinte, que era um surrão de couro que se acutilava à porta do quarto.

Existem por aí centenas de variantes, cujo fundo é sempre a ingerência do cabelo na manipulação do trabalho de macumba.


(Dornas Filho, João. "O cabelo humano na feitiçaria". Estado de Minas, 22 de abril de 1962, 3ª seção, p.2)

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