Para João Dornas Filho

Blog do Acadêmico Geraldo F. Fonte Boa. O objetivo é tornar JOÃO DORNAS FILHO, patrono da Cadeira nº 14 da Academia de Letras de Pará de Minas, conhecido pela comunidade virtual

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Terra Blog

05.02.08

BAGANA APAGADA

Continuação....

– 7 –

Depois que todo o mundo já sabia de tudo, foi que o Joaquim recebeu uma carta anônima, com um veado desenhado no alto. Dizia isso:
“A sua mulher anda te enganando. O dr. Carlinhos diz que você não passa mais a porta de uma folha só.
— Seria possível, meu Deus!

– 8 –

Era possível, sim. Um atavismo monstruoso de devassidão e alcoolismo não perdoou Maria Rosa. E ela se vergou e caiu, arrebatada por uma força estanha, feito uma folha caída na corrente.
Joaquim sofreu muito. Como que havia perdido o centro da gravidade. A casa, que lher era doce e macia como uma polpa de angá, tornou-se-lhe insuportável. A cama lhe queimava. O quarto, que era antes o reduto da sua felicidade, tinha uma cilada em cada canto.
E Maria Rosa também sofria. Andava esquiva, os olhos pisados de dôr, tinha vergonha até da sombra.
O marido, como si respeitasse a dôr que estalou o coração da esposa, e para supremo castigo, mudou apenas de quarto. Naquela cama não cabia mais tão grande infortúnio.
E, nessa silenciosa vingança, seria menos cruel si a tivesse matado. Os ligeiros minutos que se demorava em casa eram de tão grande tortura para ambos, que melhor seria estar sempre pelas ruas. Eram sufocantemente silenciosas as refeições que faziam juntos.
E toda a vila, clamando de rancorosa satisfação por mais um acontecimento a comentar, repetia, esfregando as mãos:
— Quem herda, não furta!...

– 9 –

Joaquim, como um afogado que se lança a uma última taboa, entregou-se ao álcool. Bebia noite e noites seguidas. E quando os botequins se fechavam, levava sempre no bolso uma garrafa, para esperar a manhã.
Andava pelas ruas adormecidas cambaleando e rosnando baixo. Aos rumores vagos da noite respondia com injurias medonhas, atirando pedras furiosas às corujas que se riam dele.
— Stá rindo de que, suas p...? Vá rir da sua mãe, ouviu bem?!
Era o delirio.
Si algum cão vagabundo surgia, encolhendo-se às paredes, o rabo entre as pernas, Joaquim berrava estuporado, arregalando os olhos como si visse uma assombração horrível.
E o vilarejo, que acordava noite morta com as suas trágicas tropelias, reclamava com ódio:
— Isso não pode continuar. O delegado precisa tomar uma providência. Que inferno! Ninguém pode mais dormir, simplesmente porque um vagabundo não soube guardar a mulher! Gente pobre não tem honra, essa é boa!

– 10 –

A maior desgraça de um desgraçado é a vaia da molecada. E a vaia também chegou:
— Corta-pinga!
— Joaquim doido!
— A caixa dágua pegou fogo, curraleiro!

– 11 –

Mas, a revolta também chegou. Surda, concentrada, rilhando os dentes como caetitú acuado.
Aproveitando a ausência do dr. Carlinhos, Joaquim penetrou, uma noite, na sua casa adormecida, amordaçou-lhe a mulher, que estava grávida, e aparou-lhe rente, como um rancor silencioso, os bicos dos seios.
— Estes peitos não hão de criar outro bandido como aquele!
E caiu no mundo.

– 12 –

Só, odiada, órfã de tudo, abandonada pelo marido de quem não tinha notícias, Maria Rosa desceu mais um degrau.
Moça, formosa e requestada, o destino engodou-a com uma anos de vida fácil. Esbanjou a mocidade com um milionário esbanja a fortuna nos últimos dias de vida.
Mas, não tardou o declínio. Vendeu todos os encantos que possuía, e a miséria chegou. Veio a forme. Vieram as doenças. E a boca do arraial por cima, a injuriá-la, a cuspi-la.
Desceu à sarjeta. Os cães, mais hábeis do que ela, ficavam com os melhores ossos. E furtou. Para o estomago não há lei nem propriedade. Foi presa. Espancada. Não podia esmolar, porque o padre declarou excomungado que a socorresse.
— É o demônio! — berrava na prática da missa. E quem a socorrer, está alimentando o pecado!
E ela, que nunca esquecera o Joaquim, batia no peito alagado de lágrimas.
— Minha culpa! Minha culpa!

– 13 –

Joaquim, tangido pelo grande vento da desgraça, rodopiou pelo mundo como folha morta.
Andou como um judeu, viu outras desgraças como a sua e compreendeu, já vencido, que só a resignação é o grande abrigo maternal contra as dores do mundo.
O que é a dor senão uma contingência irrevogável de todos os seres do Universo? O açúcar, que nos adoça a boca na alegria e na doença, vem da tortura triturada de outra vida nos engenhos de ferro. A cama em que nascemos, em que descansamos das fadigas e das desilusões, e que nos recebe para o grande sono do esquecimento — foi árvore, viveu, deu sombra e fruto aos homens, abrigou ninhos e alvoradas...
E a figura de Maria Rosa, bela e sofredora, cresceu-lhe de novo no coração reflorido. Apareceu-lhe à imaginação erguendo os braços convulsos para o alto, para o mistério indecifrável das nuvens que, por não se ter revelado mesmo, é o lugar para o qual ainda se voltam todas as esperanças.
Ela sofria muito, por certo. Mais do que ele, porque talvez não tivesse atingido essa confortadora e tranqüila resignação.
Ela não o compreendeu, mas que importa? Infeliciou-o apenas aos olhos egoístas dos homens, que ditam leis para o coração quando o coração é livre como os vendavais. Que importa que a sociedade o considere um desgraçado, si o coração dele dela não se submetem ao absurdo dessa convenção?
E alem de tudo o amor, o seu grande e desventura amor, impeli-o a voltar para os braços esfarrapados de Maria Rosa!

– 14 –

E voltou.
Encontrou-a estirada num giráo de palha, o olhar mortiço de sofrimento. Muito tempo estivera abraçados e chorando silenciosamente.
Ela falou, por fim:
— Não chore, Joaquim. Não mereço as suas lágrimas. A culpada fui eu. Não vê como os meus olhos estão enxutos? Chorei tanto, que eles não se umedecem mais!
— Não Maria Rosa. A culpa não foi de ninguém. É o que tinha de ser. Andei muito, e sofri muito também. Gastei meu corpo no sofrimento e no vício, mas o coração ainda é o mesmo, talvez até mais humano, porque purificou-se no fogo da desgraça e do ódio. Aqui estou para te amparar!
— É a bagana, Maria Rosa. É a bagana consumida e curtida, um tiquinho de cigarro. É a bagana esquecida que se arranca detrás da orelha, mas que queima melhor e é mais gostosa, porque já foi pitada e mordida. Pita, Maria Rosa. Acende e pita esta bagana apagada.


FILHO, João Dornas. Bagana Apagada in: Bagana Apagada. São Paulo: Editora Guaíra Ltda., Col. Contos - 167, 1940. pp. 10-24)

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