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		<title>Para Jo&#227;o Dornas Filho</title>
		<link>http://joaodornas.blog.terra.com.br</link>
		<description>Blog do Acad&#234;mico Geraldo F. Fonte Boa. O objetivo &#233; tornar JO&#195;O DORNAS FILHO, patrono da Cadeira n&#186; 14 da Academia de Letras de Par&#225; de Minas, conhecido pela comunidade virtual</description>
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		<category>Outros</category>
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			<title>Jo&#227;o Dornas na FAPAM</title>
			<link>http://joaodornas.blog.terra.com.br/joao_dornas_na_fapam</link>
			<pubDate>30.06.08</pubDate>
			
			<description>A Faculdade de Par&#225; de Minas realiza estudo da obra de Jo&#227;o Dornas Filho. Em contrapartida convidamos a todos os interessados para colocar em sua agenda o&#160;VESTIBULAR&#160;DE&#160;INVERNO 2008 DA FACULDADE DE PAR&#193; DE MINAS, dia 27/07. Vagas para os cursos de DIREITO, ENFERMAGEM&#160;e NUTRI&#199;&#195;O. Entre em contato pelo site da FAPAM&#160;www.fapam.edu.br&#160;
PARTICIPE!!!!

&#160;</description>
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			<title>Efem&#233;redes Itaunense - Mar&#231;o I</title>
			<link>http://joaodornas.blog.terra.com.br/efemeredes_itaunense_marco_i</link>
			<pubDate>08.04.08</pubDate>
			
			<description>FILHO, Jo&#227;o Dornas. Eferm&#233;redes Ita&#250;nense. Col. Vila Rica. Edi&#231;&#245;es Jo&#227;o Calazans, 1951, p&#225;g. 33-34
&#160;
2 de Mar&#231;o 1911 &#8211; Nasce o Sr. Dario Guimar&#227;es Camargos, filho do Sr. Os&#243;rio Camargos e sua sra. D. Dagmar Guimar&#227;es Camargos. Formado em odontologia pela Universidade de Minas Gerais em 1934. Casado com a Sr. Luiza Fonseca Camargos. 1913 &#8211; Nasce o sr. Dr. Mozart Smith Camargos, filho do Sr. Os&#243;rio Camargos e sua sra. D. Dagmar Guimar&#227;es Camargos. Bacharel em Direito pela Universidade de Minas Gerais em 1936. Casado com Sra. Elza Ing&#234;nito Camargos. 1919 &#8211; Inaugura-se solenemente o Clube Itaunense em pr&#233;dio pr&#243;prio na rua Silva Jardim. 3 de Mar&#231;o 1946 &#8211; Falece a sra. Marai Laurinda Nogueira, vi&#250;va do sr. Orisimbo Caetano Moreira. Nascera a 3 de julho de 1878. 4 de Mar&#231;o 1917 &#8211; Inaugura-se festivamente o novo edif&#237;cio da esta&#231;&#227;o da Estada de Ferro Oeste de Minas, constru&#237;da na administra&#231;&#227;o do engenheiro Agostinho P&#244;rto, que presidiu &#224;s solenidades. 1922 &#8211; Realizado o primeiro sepultamento no novo Cemit&#233;rio Municipal com o cad&#225;ver da sra. Anita Nogueira Machado. 1946 &#8211; Falece o sr. Pedro Artur de Souza Coutinho, funcion&#225;rio aposentado dos Correios de Belo Horizonte e pai do sr. Dr. Ant&#244;nio de Lima Coutinho, cirurgi&#227;o da Casa de Caridade &#8220;Manuel Gon&#231;alves&#8221; e ex-prefeito municipal. 5 de Mar&#231;o 1878 &#8211; Nasce a sra. Ana Gon&#231;alves de Souza Lima, filha do Cel. Manuel Jos&#233; de Souza Moreira e sua esposa. Casou-se em setembro de 1894 com o sr. Cel. Jo&#227;o de Cerqueira Lima. 6 de Mar&#231;o 1927 &#8211; Nasce o sr. Dr. Heli Gon&#231;alves de Souza, filho do sr. Godofredo Gon&#231;alves de Souza e sua senhora Ivolina Gon&#231;alves de Souza. Bacharel em Direito pela Universidade de Minas Gerais em dezembro de 1950. 7 de Mar&#231;o 1900 &#8211; Falece o tenente-coronel Zacarias Ribeiro de Camargos, fazendeiro e capitalista, deixando numera desend&#234;ncia. 09 de Mar&#231;o 1936 &#8211; Falece no distrito de Cajur&#250; o Padre Jos&#233; Alexandre de Mendon&#231;a, que paroquiou a freguezia desde 1889. </description>
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		<item>
			<title>BAGANA APAGADA</title>
			<link>http://joaodornas.blog.terra.com.br/bagana_apagada</link>
			<pubDate>05.02.08</pubDate>
			
			<description>Jo&#227;o Dornas Filho 
&#8211; 1 &#8211; 
&#8212; Maria Rosa! &#211;, Maria Rosa! &#8212; Oi! &#8212; Vamos se banhar no rio? &#8212; Vamos. Deixa s&#243; eu lavar os pratos da janta, viu? &#8212;Viu. Mas hoje n&#243;s vamos se banhar pelado outra vez... Era o Joaquim da botica que a chamava na cerca da horta. Todas as tardes, quando o morma&#231;o crescia, iam os dois se banhar no rio que corre sonolentamente em Itaco&#225;ra. E quem passava na estrada e os via muito agarradinho dentro d&#8217;&#225;gua, muchocheava: &#8212; Quem herda, n&#227;o furta!... 
&#8211; 2 &#8211; 
Diziam isso por causa da m&#227;e de Maria Rosa. Foi a mulher mais falada da vila. Morena bonita, fresca, muito alegre. Cantadeira de moda estava ali. Pobrezinha da Maria Rosa! Como n&#227;o haver&#225; de ter sa&#237;do assim? A Inhana parece que tinha o capeta no corpo! Contam at&#233; que uma vez o filho de um fazendeiro rica&#231;o quis se casar com ela, e sondou o pai: &#8212; O Lorindo t&#234;m uma cachorrinha de ano e meio que &#233; uma sonsa pra ca&#231;ar. O pai, a m&#227;e, as irm&#227;s, todos iam na catinga do bicho como se fosse pra missa e ela ainda nem diferencia um veado de um cabrito. O senhor acha que ela vem a ca&#231;ar? O velho co&#231;ou a barba, pensativo. E depois: &#8212; Si &#233; de ra&#231;a veadeira, pode est&#225; descansado que ele vem a ca&#231;ar. Est&#225; na massa do sangue... O mo&#231;o desistiu do casamento. 
&#8211; 3 &#8211; 
&#8212; Seu Chico, seu Chico! O senhor precisa deixar de beber desse jeito, homem de Deus! Assim, isso n&#227;o pode ir pra frente, caramba! A igreja anda que nem um chiqueiro, Deus me perdoe! V&#234; aquele S&#227;o Benedito como est&#225; ru&#231;o de poeira! Ainda ontem descobri uma ninhada de rato na barriga do Senhor Morto, seu Chico! &#201; um horror, criatura de Cristo, &#233; um horror! H&#225; vinte e cinco anos que o padre Batista falava assim com o pai de Maria Rosa. As cal&#231;as amarradas por baixo da barriga estufada, o olhar sem for&#231;a nadando eternamente numa &#225;gua que lhe escorria da p&#225;lpebra, o sacrist&#227;o de Santana de Itaco&#225;ra nunca na sua vida deixou de estourar na venda do Salim Turco a sua magra renda di&#225;ria. Quando o cel. Liberato adoeceu pra morrer, seu Chico chamou de parte o Salim e pediu-lhe que lhe vendesse uma garrafa de pingo &#8220;por conta do enterro do seu coronel, porque desta ele n&#227;o escapa mesmo&#8221;... Foram desse feitio os pais de Maria Rosa. Cresceu sozinha, nadando no rio com os moleques e levando pancadas incr&#237;veis do pai, que voltava para casa invariavelmente b&#234;bedo. E aquela afei&#231;&#227;o do Joaquim da botica, aquela dedica&#231;&#227;o de pombo manso, aquela maneira assustada pelo receio de ofend&#234;-la, ado&#231;ava-lhe o cora&#231;&#227;o. Maria Rosa n&#227;o estava acostumada com isso... Gostava de falar-lhe sempre, de estar junto dele, e no banho, quando Joaquim a rodeava, nuinho como nasceu, Maria Rosa sentia um arrepio esquisito pelo corpo, que n&#227;o sabia explicar. Muitos anos correram assim, nesse id&#237;lio ing&#234;nuo e selvagem, sempre se encontrando e sempre se querendo. Por ser o Joaquim um enjeitado, o beat&#233;rio da vila dizia, com nojo: &#8212; T&#227;o b&#227;o &#233; a tampa como o bal&#225;io!... Cresceram ambos, e quando o cabe&#231;&#227;o da camisa de Maria Rosa come&#231;ou a empinar, Joaquim pediu-lhe, muito humilde, que deixasse de se banhar no rio. E ela obedeceu. O rapaz, apesar da sua timidez assustada, exercia sobre ela uma ascend&#234;ncia compassiva e amiga, e um desejo do Joaquim era para ela uma ordem gostosa a cumprir. E uma tarde, no terreiro, quando as galinhas se recolhiam cacarejando alto, ele apertou-a muito no peito e perguntou: &#8212; Maria Rosa, oc&#234; me quer bem? Ela abaixou os olhos, ruborizada, e duas l&#225;grimas encharcaram-lhe as pestanas. Dois meses depois estavam casados. 
&#8211; 4 &#8211; 
O dr. Lob&#227;o, botic&#225;rio que criara o Joaquim, n&#227;o queria esse casamento, talvez porque fosse necess&#225;rio fazer um ordenado ao rapaz. Desculpava-se dizendo que aquela rapariga n&#227;o era dos melhores troncos da vila. &#8220;Cl&#225;udica, filho, cl&#225;udica!&#8221; Era a cabe&#231;a mais clara de Santana. Lia muito o Camilo Castelo Branco e tinha longa pr&#225;tica de farm&#225;cia. Certa vez apareceu-lhe um homem querendo comprar um rem&#233;dio, mas havia esquecido o nome. S&#243; sabia que para pronunci&#225;-lo tinha de bater duas vezes a ponta da l&#237;ngua no c&#233;u da boca. &#8212; Opodeldoc! &#8212; concluiu o dr. Lob&#227;o com o dedo espetado. 
&#8211; 5 &#8211; 
Duas crian&#231;as, aqueles dois! Quando o Joaquim ia almo&#231;ar, Maria Rosa tinha sempre uma surpresa infantil para agrad&#225;-lo. Umas vezes escondia-se, e ficava o sonso a gritar pela horta. Outras, metia-se atr&#225;s da porta e, quando ele ia passando, tapava-lhe os olhos e mandava adivinhar... Comiam abra&#231;adinhos, trocando garfadas de comida. Apostavam quem bebia &#225;gua mais depressa, e trocavam beijos estalados e belisc&#245;es de mamparra... Quem havia de dizer que a filha da Inhana desse t&#227;o boa dona de casa! 
&#8211; 6 &#8211; 
Um belo dia chegou &#224; vila um gavi&#227;o sob a forma de bacharel. Maneiroso, conversador, car&#225;ter de brilhantina de barbeiro, conseguiu em pouco tempo o que ambicionava desde a Academia: fazer um casamento rico. A v&#237;tima foi a filha do cel. Veridiano. Feia, analfabeta e muito soberba, a tola. Maria Rosa, no prest&#237;gio de uma mocidade exuberante, n&#227;o tardou em esquentar o sangue do dr. Carlinhos, que lhe dizia frases de &#8220;Hermengarda&#8221;, cometia versos l&#237;ricos e lhe mandava balas de a&#231;&#250;car. Um mo&#231;o da vila, sabendo que o bacharel passava noites inteiras jogando v&#237;spora com o Joaquim e a Maria Rosa, sem contudo ir alem disso por medo ao marido, fez-lhe uma carta an&#244;nima dizendo que &#8220;o dr. Carlinhos at&#233; parece com aquele homem que morreu de sede dentro do rio e n&#227;o bebeu &#225;gua s&#243; porque o rio n&#227;o era dele...&#8221; Em vista da carta, o bacharel tomou brios. Quest&#227;o de dignidade. Fazia-lhe serenatas longorosas, dava-lhe romances canalhas, acordava-lhe aos poucos a brasa dormida da hereditariedade com estampas obscenas e anedotas picantes. Maria Rosa lutou muito, entre o amor do Joaquim e a atavismo fatal que a vencia. Chorou muito, pediu muito &#224; Senhora do Socorro que a valesse, que afastasse do seu cora&#231;&#227;o esses maus sentimentos. O Joaquim se inquietava com a mudan&#231;a da mulher. De g&#234;nio alegre e expansivo, tornou-se sombria, monossil&#225;bica, irritadi&#231;a. E o doutor apertava o cerco. Falava-lhe de personagens dos romances que lhe emprestara, em que a aventura de um amor ileg&#237;timo aparecia como a liberta&#231;&#227;o de um afeto submetido a estola e juiz de paz. E a sensa&#231;&#227;o dos imprevisto e do perigo? E os minutos de prazer pecaminoso, em que o amor aparece redimindo e perdoando? Ela era rom&#226;ntica, a brasa dormida acordou e fez chama. E Maria Rosa caiu. Era de ra&#231;a... 
continua.... </description>
			</item>
		<item>
			<title>BAGANA APAGADA</title>
			<link>http://joaodornas.blog.terra.com.br/bagana_apagada_1</link>
			<pubDate>05.02.08</pubDate>
			
			<description>Continua&#231;&#227;o....
&#8211; 7 &#8211; 
Depois que todo o mundo j&#225; sabia de tudo, foi que o Joaquim recebeu uma carta an&#244;nima, com um veado desenhado no alto. Dizia isso: &#8220;A sua mulher anda te enganando. O dr. Carlinhos diz que voc&#234; n&#227;o passa mais a porta de uma folha s&#243;. &#8212; Seria poss&#237;vel, meu Deus! 
&#8211; 8 &#8211; 
Era poss&#237;vel, sim. Um atavismo monstruoso de devassid&#227;o e alcoolismo n&#227;o perdoou Maria Rosa. E ela se vergou e caiu, arrebatada por uma for&#231;a estanha, feito uma folha ca&#237;da na corrente. Joaquim sofreu muito. Como que havia perdido o centro da gravidade. A casa, que lher era doce e macia como uma polpa de ang&#225;, tornou-se-lhe insuport&#225;vel. A cama lhe queimava. O quarto, que era antes o reduto da sua felicidade, tinha uma cilada em cada canto. E Maria Rosa tamb&#233;m sofria. Andava esquiva, os olhos pisados de d&#244;r, tinha vergonha at&#233; da sombra. O marido, como si respeitasse a d&#244;r que estalou o cora&#231;&#227;o da esposa, e para supremo castigo, mudou apenas de quarto. Naquela cama n&#227;o cabia mais t&#227;o grande infort&#250;nio. E, nessa silenciosa vingan&#231;a, seria menos cruel si a tivesse matado. Os ligeiros minutos que se demorava em casa eram de t&#227;o grande tortura para ambos, que melhor seria estar sempre pelas ruas. Eram sufocantemente silenciosas as refei&#231;&#245;es que faziam juntos. E toda a vila, clamando de rancorosa satisfa&#231;&#227;o por mais um acontecimento a comentar, repetia, esfregando as m&#227;os: &#8212; Quem herda, n&#227;o furta!... 
&#8211; 9 &#8211; 
Joaquim, como um afogado que se lan&#231;a a uma &#250;ltima taboa, entregou-se ao &#225;lcool. Bebia noite e noites seguidas. E quando os botequins se fechavam, levava sempre no bolso uma garrafa, para esperar a manh&#227;. Andava pelas ruas adormecidas cambaleando e rosnando baixo. Aos rumores vagos da noite respondia com injurias medonhas, atirando pedras furiosas &#224;s corujas que se riam dele. &#8212; St&#225; rindo de que, suas p...? V&#225; rir da sua m&#227;e, ouviu bem?! Era o delirio. Si algum c&#227;o vagabundo surgia, encolhendo-se &#224;s paredes, o rabo entre as pernas, Joaquim berrava estuporado, arregalando os olhos como si visse uma assombra&#231;&#227;o horr&#237;vel. E o vilarejo, que acordava noite morta com as suas tr&#225;gicas tropelias, reclamava com &#243;dio: &#8212; Isso n&#227;o pode continuar. O delegado precisa tomar uma provid&#234;ncia. Que inferno! Ningu&#233;m pode mais dormir, simplesmente porque um vagabundo n&#227;o soube guardar a mulher! Gente pobre n&#227;o tem honra, essa &#233; boa! 
&#8211; 10 &#8211; 
A maior desgra&#231;a de um desgra&#231;ado &#233; a vaia da molecada. E a vaia tamb&#233;m chegou: &#8212; Corta-pinga! &#8212; Joaquim doido! &#8212; A caixa d&#225;gua pegou fogo, curraleiro! 
&#8211; 11 &#8211; 
Mas, a revolta tamb&#233;m chegou. Surda, concentrada, rilhando os dentes como caetit&#250; acuado. Aproveitando a aus&#234;ncia do dr. Carlinhos, Joaquim penetrou, uma noite, na sua casa adormecida, amorda&#231;ou-lhe a mulher, que estava gr&#225;vida, e aparou-lhe rente, como um rancor silencioso, os bicos dos seios. &#8212; Estes peitos n&#227;o h&#227;o de criar outro bandido como aquele! E caiu no mundo. 
&#8211; 12 &#8211; 
S&#243;, odiada, &#243;rf&#227; de tudo, abandonada pelo marido de quem n&#227;o tinha not&#237;cias, Maria Rosa desceu mais um degrau. Mo&#231;a, formosa e requestada, o destino engodou-a com uma anos de vida f&#225;cil. Esbanjou a mocidade com um milion&#225;rio esbanja a fortuna nos &#250;ltimos dias de vida. Mas, n&#227;o tardou o decl&#237;nio. Vendeu todos os encantos que possu&#237;a, e a mis&#233;ria chegou. Veio a forme. Vieram as doen&#231;as. E a boca do arraial por cima, a injuri&#225;-la, a cuspi-la. Desceu &#224; sarjeta. Os c&#227;es, mais h&#225;beis do que ela, ficavam com os melhores ossos. E furtou. Para o estomago n&#227;o h&#225; lei nem propriedade. Foi presa. Espancada. N&#227;o podia esmolar, porque o padre declarou excomungado que a socorresse. &#8212; &#201; o dem&#244;nio! &#8212; berrava na pr&#225;tica da missa. E quem a socorrer, est&#225; alimentando o pecado! E ela, que nunca esquecera o Joaquim, batia no peito alagado de l&#225;grimas. &#8212; Minha culpa! Minha culpa! 
&#8211; 13 &#8211; 
Joaquim, tangido pelo grande vento da desgra&#231;a, rodopiou pelo mundo como folha morta. Andou como um judeu, viu outras desgra&#231;as como a sua e compreendeu, j&#225; vencido, que s&#243; a resigna&#231;&#227;o &#233; o grande abrigo maternal contra as dores do mundo. O que &#233; a dor sen&#227;o uma conting&#234;ncia irrevog&#225;vel de todos os seres do Universo? O a&#231;&#250;car, que nos ado&#231;a a boca na alegria e na doen&#231;a, vem da tortura triturada de outra vida nos engenhos de ferro. A cama em que nascemos, em que descansamos das fadigas e das desilus&#245;es, e que nos recebe para o grande sono do esquecimento &#8212; foi &#225;rvore, viveu, deu sombra e fruto aos homens, abrigou ninhos e alvoradas... E a figura de Maria Rosa, bela e sofredora, cresceu-lhe de novo no cora&#231;&#227;o reflorido. Apareceu-lhe &#224; imagina&#231;&#227;o erguendo os bra&#231;os convulsos para o alto, para o mist&#233;rio indecifr&#225;vel das nuvens que, por n&#227;o se ter revelado mesmo, &#233; o lugar para o qual ainda se voltam todas as esperan&#231;as. Ela sofria muito, por certo. Mais do que ele, porque talvez n&#227;o tivesse atingido essa confortadora e tranq&#252;ila resigna&#231;&#227;o. Ela n&#227;o o compreendeu, mas que importa? Infeliciou-o apenas aos olhos ego&#237;stas dos homens, que ditam leis para o cora&#231;&#227;o quando o cora&#231;&#227;o &#233; livre como os vendavais. Que importa que a sociedade o considere um desgra&#231;ado, si o cora&#231;&#227;o dele dela n&#227;o se submetem ao absurdo dessa conven&#231;&#227;o? E alem de tudo o amor, o seu grande e desventura amor, impeli-o a voltar para os bra&#231;os esfarrapados de Maria Rosa! 
&#8211; 14 &#8211; 
E voltou. Encontrou-a estirada num gir&#225;o de palha, o olhar morti&#231;o de sofrimento. Muito tempo estivera abra&#231;ados e chorando silenciosamente. Ela falou, por fim: &#8212; N&#227;o chore, Joaquim. N&#227;o mere&#231;o as suas l&#225;grimas. A culpada fui eu. N&#227;o v&#234; como os meus olhos est&#227;o enxutos? Chorei tanto, que eles n&#227;o se umedecem mais! &#8212; N&#227;o Maria Rosa. A culpa n&#227;o foi de ningu&#233;m. &#201; o que tinha de ser. Andei muito, e sofri muito tamb&#233;m. Gastei meu corpo no sofrimento e no v&#237;cio, mas o cora&#231;&#227;o ainda &#233; o mesmo, talvez at&#233; mais humano, porque purificou-se no fogo da desgra&#231;a e do &#243;dio. Aqui estou para te amparar! &#8212; &#201; a bagana, Maria Rosa. &#201; a bagana consumida e curtida, um tiquinho de cigarro. &#201; a bagana esquecida que se arranca detr&#225;s da orelha, mas que queima melhor e &#233; mais gostosa, porque j&#225; foi pitada e mordida. Pita, Maria Rosa. Acende e pita esta bagana apagada. FILHO, Jo&#227;o Dornas. Bagana Apagada in: Bagana Apagada. S&#227;o Paulo: Editora Gua&#237;ra Ltda., Col. Contos - 167, 1940. pp. 10-24) </description>
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			<title>&#8220;M&#227;e do Ouro&#8221;</title>
			<link>http://joaodornas.blog.terra.com.br/mae_do_ouro</link>
			<pubDate>26.01.08</pubDate>
			
			<description>Jo&#227;o Dornas Filho
&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160; &#201; uma lenda cuja universalidade se emparelha com a sua antiguidade. O velocino de ouro, de Jas&#227;o, e a ta&#231;a do Rei de Tule, legenda do tempo do Rei Artur, s&#227;o assinaladas em seu jazigo pelo fogo sideral que risca o c&#233;u nas noites do Mediterr&#226;neo e dos mares do norte. &#201; o Santelmo. &#160;&#160; 
&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160; No ocidente a lenda dos tesouros enterrados em ilhas misteirosas pelos piratas argelinos, flamengos e franceses revitalizaram a tradi&#231;&#227;o da antiguidade. 
&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160; No Brasil, a descoberta do ouro e dos diamantes lhe deu vida nova, corroborada pela cren&#231;a dos fabulosos tesouros jesu&#237;ticos, enterrados pelos padres da Companhia, que n&#227;o tiveram tempo de conduz&#237;-los quando foi da sua expuls&#227;o. 
&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160; Em Minas &#233; a sonega&#231;&#227;o dos impostos da Coroa portuguesa que explica os tesouros enterrados, guardados pela &#8220;M&#227;e do Ouro&#8221;, que os indica tamb&#233;m &#224;s pessoas que os desejam para as boas a&#231;&#245;es. 
&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160; &#201; o b&#243;lico, ou desagrega&#231;&#227;o de astros, provocando a luminosidade que risca os c&#233;us principalmente nas noites de ver&#227;o. N&#227;o se deve apont&#225;-la com o dedo, porque lhe nascem verrugas ou fica linguaruda a pessoa que o fizer. 
&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160; Principalmente em Minas, regi&#227;o aur&#237;fera, o n&#250;mero de tesouros enterrados se conta quase por cada uma das cidades, vilas ou arraiais. Em Ouro Preto at&#233; nos alicerces e nas paredes de cada casa. 
&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160; Em Sabar&#225;, a Igreja do Carmo est&#225; constru&#237;da sobre um espantoso tesouro, que pertencera a dois irm&#227;os, desavindos na hora da partilha. Acordaram por fim que ambos abririam m&#227;o do ouro entesourado e sobre ele se construiria a Igreja que l&#225; est&#225;, sob a guarda da Senhora do Carmo e da &#8220;M&#227;e do Ouro&#8221;. 
&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160; Em Belo Horizonte o tesouro est&#225; enterrado no local que hoje se chama Mangabeira. Foi enterrado por um portugu&#234;s que o ajuntara durante v&#225;rios anos, e como aumentasse sempre o metal na sua lavra, resolveu escond&#234;-lo al&#237; e ir a Portugal, de onde traria os irm&#227;os para ajud&#225;-lo na extra&#231;&#227;o. Foi e nunca mais regressou. 
&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160; Diz a lenda que esse tesouro est&#225; enterrado na fralda do morro, no vale do c&#243;rrego do Acaba-Mundo, em frente &#224; Igreja do Boa Viagem. Esta igreja era ent&#227;o voltada para o sul. 
&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160; Mas, a &#8220;M&#227;e do Ouro&#8221; n&#227;o indica apenas os tesouros sonegados. Ela anuncia tamb&#233;m as desgra&#231;as, as guerras, as pestes, as m&#225;s colheitas. As cr&#244;nicas jesu&#237;ticas, que s&#227;o o mais opulento tesouro de supersti&#231;&#245;es e milagres da nossa Hist&#243;ria, est&#227;o cheias de casos em que a &#8220;M&#227;e do Ouro&#8221; denuncia a proximidade das cat&#225;strofes e dos acontecimentos sobrenaturais, das pestes e das guerras. 
&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160; Na serra da Moeda, proximidades de Belo Horizonte, a &#8220;Mae do Ouro&#8221; tem a forma de uma cobra &#8212; a &#8220;Cobra Serepente&#8221;. 
(FILHO, Jo&#227;o Dornas. O ouro das Gerais e a civiliza&#231;&#227;o da Capitania. S&#227;o Paulo: Companhia Editoria Nacional, 1957, Cole&#231;&#227;o Brasiliana, vol. 293, nota 23, p&#225;g. 46-47) </description>
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