Para João Dornas Filho

Blog do Acadêmico Geraldo F. Fonte Boa. O objetivo é tornar JOÃO DORNAS FILHO, patrono da Cadeira nº 14 da Academia de Letras de Pará de Minas, conhecido pela comunidade virtual

Para João Dornas Filho

Blog do Acadêmico Geraldo F. Fonte Boa. O objetivo é tornar JOÃO DORNAS FILHO, patrono da Cadeira nº 14 da Academia de Letras de Pará de Minas, conhecido pela comunidade virtual
<  Janeiro 2008  >
S T Q Q S S D
  1 2 3 4 5 6
7 8 9 10 11 12 13
14 15 16 17 18 19 20
21 22 23 24 25 26 27
28 29 30 31      
Buscar
Receba os posts
Terra Blog

Arquivo de: Janeiro 2008

26.01.08

“Mãe do Ouro”

João Dornas Filho

          É uma lenda cuja universalidade se emparelha com a sua antiguidade. O velocino de ouro, de Jasão, e a taça do Rei de Tule, legenda do tempo do Rei Artur, são assinaladas em seu jazigo pelo fogo sideral que risca o céu nas noites do Mediterrâneo e dos mares do norte. É o Santelmo.
  

          No ocidente a lenda dos tesouros enterrados em ilhas misteirosas pelos piratas argelinos, flamengos e franceses revitalizaram a tradição da antiguidade.

          No Brasil, a descoberta do ouro e dos diamantes lhe deu vida nova, corroborada pela crença dos fabulosos tesouros jesuíticos, enterrados pelos padres da Companhia, que não tiveram tempo de conduzí-los quando foi da sua expulsão.

          Em Minas é a sonegação dos impostos da Coroa portuguesa que explica os tesouros enterrados, guardados pela “Mãe do Ouro”, que os indica também às pessoas que os desejam para as boas ações.

          É o bólico, ou desagregação de astros, provocando a luminosidade que risca os céus principalmente nas noites de verão.
Não se deve apontá-la com o dedo, porque lhe nascem verrugas ou fica linguaruda a pessoa que o fizer.

          Principalmente em Minas, região aurífera, o número de tesouros enterrados se conta quase por cada uma das cidades, vilas ou arraiais. Em Ouro Preto até nos alicerces e nas paredes de cada casa.

          Em Sabará, a Igreja do Carmo está construída sobre um espantoso tesouro, que pertencera a dois irmãos, desavindos na hora da partilha. Acordaram por fim que ambos abririam mão do ouro entesourado e sobre ele se construiria a Igreja que lá está, sob a guarda da Senhora do Carmo e da “Mãe do Ouro”.

          Em Belo Horizonte o tesouro está enterrado no local que hoje se chama Mangabeira. Foi enterrado por um português que o ajuntara durante vários anos, e como aumentasse sempre o metal na sua lavra, resolveu escondê-lo alí e ir a Portugal, de onde traria os irmãos para ajudá-lo na extração. Foi e nunca mais regressou.

          Diz a lenda que esse tesouro está enterrado na fralda do morro, no vale do córrego do Acaba-Mundo, em frente à Igreja do Boa Viagem. Esta igreja era então voltada para o sul.

          Mas, a “Mãe do Ouro” não indica apenas os tesouros sonegados. Ela anuncia também as desgraças, as guerras, as pestes, as más colheitas. As crônicas jesuíticas, que são o mais opulento tesouro de superstições e milagres da nossa História, estão cheias de casos em que a “Mãe do Ouro” denuncia a proximidade das catástrofes e dos acontecimentos sobrenaturais, das pestes e das guerras.

          Na serra da Moeda, proximidades de Belo Horizonte, a “Mae do Ouro” tem a forma de uma cobra — a “Cobra Serepente”.


(FILHO, João Dornas. O ouro das Gerais e a civilização da Capitania. São Paulo: Companhia Editoria Nacional, 1957, Coleção Brasiliana, vol. 293, nota 23, pág. 46-47)

12.01.08

ACERVO BIBLIOGRÁFICO DE JOÃO DORNAS FILHO



I – Área de História e Literatura:


1. Itaúna – contribuição para a História do Município. Belo Horizonte:Gráfica Queiroz Breiner,1936.
2. Silva Jardim. São Paulo: Cia Editora Nacional Brasiliana, 1936.
3. Os Andradas na História do Brasil. Belo Horizonte: Gráfica Queiroz Breiner, 1937.
4. O Padroado e a Igreja Brasileira. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1938.
5. Escravidão no Brasil. Rio de Janer: Civilização Brasileira S.A., 1939.
6. Bagana apagada. Curitiba: Editora Guaíra, 1940.
7. Apontamentos para a história da República. Curitiba: Editora Guaíra, 1942.
8. Eça e Camilo. Curitiba: Guapura, 1945, (Caderno Azul, nº 21).
9. Júlio Ribeiro. Belo Horizonte: Livraria Cultura Brasileira (Cadernos da Província, nº2), 1945.
10. Antônio Torres. Curitiba: Guapura, 1948, (Caderno Azul, nº 31).
11. Figuras da Província. Belo Horizonte: Movimento Editorial Panorama, 1949.
12. Discurso de Recepção a Academia Mineira de Letras. Belo Horizonte: Editora Calasans, 1952.
13. Efemérides Itaúnense. Belo Horizonte: Edições Calasans, 1952.
14. O ouro das Gerais e a Civilização da Capitania, São Paulo: Cia Editora Nacional, 1957 (Coleção Brasiliana, V, 293).
15. Aspecto da Economia Nacional. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 1957.
I-a) Artigos:
1. O primeiro Imperador, Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, II: 40.
2. Evaristo da Veiga, o publicista da Regência. Revista do IHG-MG, VI:235.
3. Minas Gerais no esforço militar do Brasil. Revista do IHG-MG, VII: 426.
4. As mudanças das capitais de Portugal e do Brasil. Revista do IHG-MG, VIII: 7



II) Área de Antropologia cultural, Etnografia, folclore, Lingüística e Sociologia:


1. Achegas da Etnografia e folclore. Belo Horizonte: Imprensa Publicações, 1972 (Edição Póstuma).
2. A Influência Social do Negro brasileiro. Curitiba:Editora Guaira, 1943
3. Um folguedo do povo: O bumba-meu-boi (Ensaio de História e folclore). Maceió: Ed. Caeté,1957.
II –a) Artigos:
1. Algumas questões de folclore. Revista do Arquivo Municipal de São Paulo, ano 4, nº. 46, Abril de 1938, pp. 145-180.
2. Cantigas dos capinadores de Rua de Belo Horizonte. Revista do Arquivo Municipal de São Paulo, ano 5, nº. 50, setembro de 1938, pp. 89-92.
3. A influência social do negro brasileiro. Revista do Arquivo Municipal de São Paulo, Ano 5, nº. 51, Out. de 1938, pp. 95-134.
4. Vocabulário Quimbundo. Revista do Arquivo Municipal de São Paulo, Ano5, nº. 49, Jul-ago de 1928, pp. 143-150.
5. O reisado ou o congado em Itaúna. Rio de Janeiro: Euclides, 2(8) Jun 1941 pp. 113-116
6. O jubileu do S. Bom Jesus da Lapa. Rio de Janeiro: Cultura Política, 5(49), Fev. 1945, pp. 138-141.
7. A abolição e a musa popular em 1831. Rio de Janeiro: Rev.Cultura e Política, 4(41),jun. 1944, pp.155-159.
8. O natal e os fenômenos de aculturação em Minas Gerais. Rev.Brasileira, Rio de Janeiro, 5(14), set.1945, pp. 136-145.
9. O parto, a parturiente e o diabo na crendice popular do Brasil. . Rev.Brasileira, Rio de Janeiro, 5(12), mar.1945, pp. 72-80.
10. Folclore do Jogo. Folha de Minas Literária, de 05.09.1948.
11. Idéias práticas sobre o parto e a criança em Minas Gerais.Rev. Sociologia, São Paulo, 12(3) Jul/set 1950, pp.247-258
12. Folclore dos garimpos. Boletim Clarinense de folclore, Florianópolis, 2(8), jun.1951, pp 88-89.
13. A influencia do meio sobre o fenômeno folclórico. Folclore, São Paulo,1(13), 1951, pp.60-69.
14. Apontamentos Lingüísticos. Separata da Revista Investigações, São Paulo: 4(14) Maio de 1952, pp. 94-110.
15. Três fichas etnográficas, Cadernos Mineiros, Belo Horizonte, MG, 30.03.1952
16. Aspectos da mestiçagem nas Alagoas, Maceió, Imprensa Oficial, 1955 (separata da Revista do Inst. Histórico e Geográfico de Alagoas, vol. 27, 1951-1953.
17. Devoções e festas juninas alagoanas. Boletim Alagoano de Folclore, 5-6(1-2), jun. 1957, pp.26-29.
18. Amanhã é Domingo. Folclore, 8 (51/54), nov.-dez. 1957, jan.1958, p.3.
19. Paus de Arara. Boletim Alagoano de Folclore, 5-6(1-2), 1960-61, pp.33-34.
20. Abracadabra. A Gazeta, São Paulo, 05.03.1960.
21. Minas Gerais e o culta da Aparecida do Norte. Estado de Minas, Belo Horizonte, 12.03.1961.

Bibliografia copiada da nota nº 44, de MOTA, Atiço Vilas Boas da. Contribuição à História da Ciganologia no Brasil. (Separata da Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, “Goiânia”, nº X, 1982)

09.01.08

CANTIGA DOS CAPINADORES DE RUA EM BELO HORIZONTE

As obras de pavimentação de asfalto em Belo Horizonte irão muito brevemente fazer desaparecer uma nota de imenso pitoresco - as turmas de crianças capinadoras das ruas.

Em bandos de dez a quinze, regidos por um feitor adulto, esses precoces trabalhadores, cuja idade não ultrapassa os onze anos, enchem de alegria e jovialidade as ruas da capital, capinando, com instrumentos especiais que tinem ritmadamente no granito do calçamento, e cantando ao ritmo do trabalho para esquecerem o cansaço da tarefa.

O canto, no Brasil, foi sempre companheiro do trabalho. Nos eitos dos cafezais, o negro escravo cantava para enganar a canseira do machado e da enxada, enchendo as matas com um canto alongado e triste em que se misturavam, em segundas e primeiras, as vozes dos homens, das mulheres e das crianças:

Maria amarra o cabelo
Bota goma no tundá
Vamos pra beira do rio
Ver os peixinhos nadar...

E as lavadeiras também, à margem dos córregos e das cacimbas, não dispensam as cantigas para engambelar o trabalho meio monótono de esfregar roupas intermináveis:

Cravo branco, não me prendas
Que eu não tenho quem me solte
Não me prendas, cravo branco
Que eu quero dançar um xote...

As cantigas dos capinadores de rua, são, entretanto, mais alegres, mais vivas, mais saltitantes, (não tivessem eles onze anos.. ) apesar de possuírem uma certa melancolia, uma tristeza vaga e indistinta que trai o sofrimento das fomes silenciosas e dos cansaços irremediáveis...

Geralmente são cantigas populares que eles adaptam ao ritmo do trabalho, e não raro reponta nelas a revolta contra o cão de fila do feitor, a quem chamam Caipapa, que lhes fiscaliza o serviço nem sempre feito com a desejada perfeição:

Quando vim da minha terra
Eu passei no matadô
Vim montado no seu pai
E puxando o seu avô...

Geraldo Boquêra me falou (todos eles têm apelidos: Geraldo Boquêra, Rato Branco, Luiz Caneludo, Caveira, Chinó, Timerão, Barnê, Carolina...) que o Caipapa (feitor) tem ordem do prefeito de não "apertar a mão" com eles, mas o Caipapa é sempre muito "sabuco" (adulador) e aperta com eles pra ficar "limpo" com o deretor...

Mal alimentados por uma comida feita de véspera e que trazem numa lata aquecida em fogo improvisado na rua, mesmo assim a força dos onze anos rompe a cadeia de ferro do infortúnio para expluir em cantigas, meio tristes no conjunto das vozes:

Eu joguei um cravo n’água
De mimoso foi ao fundo
E os peixinhos responderam
- Viva dom Pedro II

Casaca de velho é fogo
Casco de burro é tamanco
Amigo, por Deus ajuda
Ocê não aguenta dois arranco...

Quando vim da minha terra
Passei por Sabará
Uma velha muito velha
E querendo namorá...

Eu tenho o cabelo bão
Das meninas penteá
Menina, eu cá sou baiano
E vim pra te namorá...

E no ritmo da enxadinha:

Na rua de baixo
Não posso passá
Uma véia coroca
Quer me pegá...

Veado no mato
É corredô
E eu sou bão
Atiradô...

No Sapatinho de algodão reponta aquela gabolice dos desafios nordestinos e talvez mesmo uma forma dos desafios. Assim:

Subi na serra de fogo
Sapatinho de algodão
Sapatinho pegou fogo
E desci de pé no chão

Lá no fundo do quintal
Tem um tacho de melado
Quem não sabe botar verso
É melhor ficar calado

No alto daquela serra
Tem um pé de jatobá
Quem casa com mulher velha
Tem muxiba pra chupá

A dona lá de casa
Me mandou se repeli
O verso que cantei agora
Não se pode repetir

O que é de um belíssimo efeito pela tristeza envolvente e pelo movimento da solfa, é o "quebra, quebra gabiroba":

Quebra, quebra, gabiroba
Quero ver quebrá
Quebra lá
Que eu quebro cá
Quero ver quebrá

Chui, chui, chuá
Deixa a chuva peneirá
Tem catinga de joá...

Em cima da bananeira
Chove chuva sem cessá
Ou mais tarde ou mais cedo
Nós temos que descansá
Samambaia pegou fogo
Sapecou tamanduá
Uê, uá

Corta maneiro
Ele vem de sertanejo
Como percevejo
Mas não como caranguejo...

De grande efeito melódico é também o Escoteiro quebra-coco, cujo nome está indicando a procedência nordestina. Por ele se confirma aquele estado de espírito com relação ao Caipapa. Complexo de inferioridade que emerge em presença do escoteiro, como eles criança, mas ao contrário deles com o luxo do uniforme e das distrações ricas e inúteis...

Ouçamo-lo:

Escoteiro quebra-coco
Na ladeira do piá
[...]
E depois cai estudá

Lagartixa na parede
Parece camboleão
Escoteiro na cozinha
Parece gato ladrão

Passei no Sererê
Quando vim de Pernambuco
Vim montado no escoteiro
Êta bicho pra correr...

Eu tenho uma garruchinha
Carregada até o meio
Pra namorá moça bonita
E matar a gente feio...

Não tenho medo d’ocê
Nem da sua garruchinha
Porque do chumbo faço água
Da pórva faço farinha

O que é interessante nas cantigas dos capinadores é que ele vêm criando um folclore especial, só deles, e apenas com a desarticulação do ritmo, ao compasso do seu trabalho, de cantigas muitas vezes já conhecidas. Dão-lhe a forma e o andamento adequado à sua profissão, criando novas melodias de uma beleza meio tristonha. Beleza que talvez seja aumentada pelos onze anos dessas boquinhas famintas que cantam para enganar o estômago e o cansaço...

[1938]


(DORNAS FILHO, João. Em Revista do Arquivo Municipal, setembro de 1938)

01.01.08

Novo espaço para João Dornas Filho

Nós que gostamos de história regional, que valorizamos tudo aquilo que revelam nossa identidade enquanto povo, enquanto mineiro, sempre estamos a serviço. Ao escolher João Dornas Filho como patrono da cadeira nº 14 da Academia de Letras de Pará de Minas, o fiz não apenas pelas qualidades literárias, ou por ser um Itaunense, mas principalmente por desenvolver trabalhos que revelavam a identidade desta "NAÇÃO MINAS GERAIS".

Agora desenvolvemos este blog com objetivo de divulgar, não só escritos de João Dornas Filho, mas também comentários, link's, pesquisas e trabalhos referente a este "Matuto das Gerais", nosso "Zau".

Não sou o único admirador das obras de João Dornas Filho, o "Zau". Há outros estudiosos e pesquisadores da região que destaca os trabalhos deste "Matuto das Gerais". Dentre estes podemos destacar o Sr. Oswaldo Guiomar de Carmo do Cajuru, que também o tem como patrono na Academia de Letras em Divinópolis; o genealogista Sr. Guaracy de Castro Nogueira e o grande AGENTE cultural de nossa "Santana do São João Acima" (Itaúna) o músico, compositor, poeta, jornalista e amigo Pepe Chaves que acaba de lançar uma Página na Internet totalmente dedicada ao nosso "Matuto das Gerais", no "Zau", sr. João Dornas Filho.

Visite a Página de João Dornas Filho, conheça este "Matuto"! Conheça nossa gente!

http://www.viafanzine.jor.br/dornas.htm