Para João Dornas Filho

Blog do Acadêmico Geraldo F. Fonte Boa. O objetivo é tornar JOÃO DORNAS FILHO, patrono da Cadeira nº 14 da Academia de Letras de Pará de Minas, conhecido pela comunidade virtual

Para João Dornas Filho

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Arquivo de: Dezembro 2007

31.12.07

Fragmento: Crítica literária de João Dornas Filho

{manuscrito} Alfonsus – Humorista {rabiscado} e tradutor

              Uma feição pouco conhecida do espirito do grande vato Al-
fonsus de Guimaraens é a do humorismo e a satira ligeira, cordas
que o poeta de Mariana feriu tambem com invejavel destresa e bri-
lho inegável quando fazia jornalismo provinciano e despreocupado.
Primo de Bernardo Gumarães, a vis cômica de Alfonsus em nada é
Inferior a do alegre juiz de Calatão.
             Recolhidos dos jornais antigos de Conceição do Mato Dentro,
quando ali exercia o cargo de juiz municipal, daremos de Alfonsus
alguns versos do gênero, que em nada diminuem as dimensões do pode-
roso simbolista de “Kiriele” e dos poemas aos crentes do amor e da
Morte.


               Apresentando a seus leitores o jornal “Conceição”, de que era
redator, escrevia:



“Como um pinto sai do ovo,
surjo formoso e galante,
nascida de um prelo novo...
old-tom é o meu amante...

Vou tranquila, vou serena,
semeando boas doutrinas.
E todos dizem: - “Morena
és o lírio das meninas!...”

Na secção denominada “Bis in septam” existem estes versos:
“Nós vamos de vento em pôpa
à força de grandes remos;
já não trocamos de roupa,
tal o trabalho que temos.

30.12.07

O CABELO HUMANO NA FEITIÇARIA

João Dornas Filho

Há em Minas Gerais um grande número de abusões e feitiçarias de origem africana que tem o cabelo como elemento principal da sua manipulação.

Do meu arquivo constam três peças desse gênero, que passarei a copiar como as colhi.

Existia em Ouro Preto uma formosa mundana que, tendo rendido a seu capricho todos os homens que desejava, viu o seu orgulho ferido pela esquivança de um apenas.

Ofendida por esse fracasso, a mundana, mancomunada com uma escrava, preparou a mandinga na forma de um bolo apetitoso e enviou-o, em nome de um amigo, ao insubmisso varão, que mal comido o quitute, se renderia incondicionalmente aos encantos da astuciosa mulher.

Mas, acontece que quem recebeu o presente foi a esposa do desejado amante que, desconfiando da procedência da bandeja, deu o bolo a comer a um cão do seu marido. E, devorado o manjar, esse cão, como que atraído por forças irresistíveis, partiu celeremente, seguido pela escrava da senhora, segundo recomendações desta, para saber o destino que tomara o animal.

Atingida a casa da mundana, o cão pôs-se a latir e a forçar a porta com impaciência. E a mundana, supondo tratar-se do homem que desejava, se apresenta toda orgulhoa para ver rendido o rebelde a seus pés, quando é violentamente cingida pelo animal que, erguido nas patas traseiras, a abraçava com o furor de um amante.

O bolo fora confeccionado com cabelo pubiano da mundana.

Esta outra foi colhida em Santa Bárbara:

Uma jovem desgraciosa se apaixonara por um rapaz, dono de uma tropa de muares que arranchava semanalmente na fazenda do seu pai.

Como o tropeiro, por desdém ou qualquer outro motivo, não tomasse conhecimento do interesse da moça, resolveu recorrer a um feitiço manipulado com alguns fios de cabelo do rapaz. Para isto, obteve, por intermédio de um empregado do tropeiro, a mecha desejada, alegando que era para ter uma lembrança do esquivo mancebo.

Recebida e preparada a mandinga, ficou a moça à espera dos resultados.

Uma noite é ela acordada por fortes pancadas na porta do seu quarto, acompanhadas de fortes berros e espirros. Aberta a porta, um bode grande e amarelo, ostentando uma longa barba loura, procurava refugiar-se nas suas saias. É que a mandinga fora feita com os cabelos da barba desse bode, insidiosamente fornecidos pelo empregado do tropeiro.

Esta é de Santa Luzia:

Uma moça se apaixonou por um arrieiro de tropa que não fazia caso dela. A pedido da namorada infeliz, alguém ficara de lhe arranjar uns fios de cabelo do arrieiro, mas, em vez disso, arranjou-lhe fios do couro que reveste a cangalha.

Feito o despacho, começa a cangalha a dar pinotes em direção da casa da moça, onde estacou e só perdeu o "encanto" quando a rapariga deitou no fogo o despacho.

A versão que recolhi em Sabará é a de que, tendo chegado à cidade, nos tempos coloniais, um ouvidor jovem e belo, não tardou que por ele se interessasse uma certa donzela, talvez já impaciente de arranjar casamento. E como o juiz não se movesse por força dos ardis costumeiros, não titubeou ela em lançar mão da mandinga dos cabelos. Para isto, tentou peitar o escravo do senhor, para conseguir uns fios de barba quando ele se barbeasse.

O fiel escravo contou ao moço o sucedido e combinou-se que se levasse cabelo raspado de um surrão que o amo possuía.

Manipulado o despacho, é a moça acordada certa noite com fortes pancadas na porta. Levanta-se com sofreguidão e verifica, antes de desmaiar para falecer no dia seguinte, que era um surrão de couro que se acutilava à porta do quarto.

Existem por aí centenas de variantes, cujo fundo é sempre a ingerência do cabelo na manipulação do trabalho de macumba.


(Dornas Filho, João. "O cabelo humano na feitiçaria". Estado de Minas, 22 de abril de 1962, 3ª seção, p.2)

28.12.07

Tópicos do Discurso de Posse de Geraldo Fonte Boa

João Dornas Filho, um “matuto” nascido no alvorecer do século XX, na recém criada cidade de Itaúna. Foi um homem que, além da produção literária com “Bagana Apagada”, livro de contos publicado em 1940, se dedicou a perscrutar a alma do povo mineiro, buscando conhecê-lo em suas crenças, superstições, danças, ritmos e cantigas. Membro do movimento modernista mineiro, João Dornas Filho é hoje, lamentavelmente pouco conhecido, principalmente entre os seus conterrâneos.


João Dornas Filho nasceu a 07 de agosto de 1902, filho de uma família de fazendeiros, o senhor João Dornas dos Santos e D. Maria Eugênia Vianna Dornas; seu avô paterno foi um dos maiores fazendeiros em Mateus Leme, falecido em 1887, o Sr. Pedro Dornas dos Santos, cujo inventário encontra-se no Acervo Documental Mesopotâmia Mineira na FAPAM – Faculdade de Pará de Minas. João Dornas dos Santos, após a morte de Pedro Dornas dos Santos, casou-se e foi para Itaúna, lá nasceu João Dornas Filho. 


(...) Na década de 1920, mudou-se para Belo Horizonte, onde passa a trabalhar como funcionário público. É aí que se destaca como literato, pesquisador e ensaísta. Com participação direta do movimento modernista tornou-se um de seus expoentes em Minas Gerais, sendo membro deste movimento de renovação, vai emprestar a ele uma característica que o distingue do movimento de São Paulo e Rio de Janeiro: o caráter sociológico, etnográfico e antropológico.


 

Na primeira fase do Movimento Modernista, João Dornas Filho incorporou-se do “caráter eminentemente destrutivo”, resultado da “inex-periência” e da vontade de mudança pela mudança, próprio dos tempos intempestivos da juventude. Esta característica “destrutiva” da primeira fase do movimento é reconhecida pelo próprio Dornas Filho quando de seu discurso – penitencial, por assim dizer – de recepção na Academia Mineira de Letras no ano de 1945. Nesta ocasião escreve João Dornas Filho:
“Fui um dos mais severos acusadores no julgamento da geração anterior, porque estava convencido da sua incapacida-de em guardar o patrimônio mental que deveria nos ser transferido, senão aumentado, pelo menos intacto na grandeza que o século XIX lhe infundira. Daí o meu desdém – o desdém da inexperiência e da revolta contra vossa Casa (no caso a Academia Mineira de Letras), cujo espírito, fundido pelo humanitarismo do grande século anterior, representava aos meus olhos inespertos um estado de coisas que era urgente modificar”(DORNAS FILHO: 1951, 9)
Não achando-se suficientemente penitenciado, conclui em seu pronunciamento: “Éramos muito moços e ardentes para compreendermos a complexidade desses problemas, e daí a revolta, o sarcasmo, a ironia, a impiedade – que forma o selo dessa geração torturada”( DORNAS FILHO: 1951,57)


(...) na segunda fase que João Dornas Filho se destaca. Ele se coloca como um intelectual em busca do “…autoconhecimento do País, tinha a um só tempo de acabar com o mimetismo mental e denunciar o atraso, a miséria e o subdesenvolvimento” , mas ao mesmo tempo fosse um “denunciar com uma linguagem do nosso tempo, moderna, coloquial, aproveitando o arsenal estilístico e estético das inovações das vanguardas européias.”


(..)  é que se situa grande parte de suas obras e artigos, a começar com as Biografias de Silva Jardim de 1936, passando pelas pesquisas sociológicas e de cunho histórico presentes em Apontamentos para a história da República (1942), Figuras da Província (1949), O Ouro das Gerais e a Civilização da Capitania (1957) e Aspecto da Economia Nacional (1957), Capítulos da Sociologia Brasileira (1958) além contar com a grande coleta de dados da riqueza cultural do povo brasileiro, de modo especial dos mineiros, o que deu origem aos inúmeros artigos em jornais de circulação estadual e nacional e as obras Um folguedo do povo: O bumba-meu-boi (1957) e Achegas da Etnografia e Folclore – obra póstuma de 1972.


Nestas obras, João Dornas Filho transpira a alma do povo mineiro: é o revelar das crenças, das falas, das superstições, do jeito de viver e da história do povo mineiro, como elemento integrante e constitutivo do povo brasileiro. É a partir da cantiga, da tradição, das lendas, da fé e da arte mineira que João Dornas Filho escreve. Em suas obras transparece o “espírito” que movimenta o povo em sua luta pela sobrevivência, ao mesmo tempo que constitui “matéria-prima” do próprio movimento modernista mineiro.


Mas o grande destaque literário de João Dornas Filho não se limita às publicações referente ao trabalho de “autoconhecimento” do Brasil. Não podemos deixar de destacar as biografias analíticas de Eça e Camilo (1945) e seu Livro de contos Bagana Apagada(1940). E por falar em “Bagana Apagada”, há uma curiosidade, pois segundo consta – conforme depoimento de sua irmã D. Suzana Dornas - João Dornas não gostava desta obra, a única obra que era criticada pelo próprio autor. No entanto, nestes contos podemos destacar os temas do cotidiano, do dia-a-dia das pessoas do interior, suas decepções e desilusões amorosas, mas tudo com um requinte na linguagem. No entanto, nenhuma destas obras tiveram tanta repercussão, para o próprio movimento modernista mineiro, como a Revista “Leite Criôlo”, criada e dirigida por João Dornas Filho, e que ainda hoje é referência tanto para a literatura como para o es-tudo da cultura de Minas Gerais. “Leite Criôlo” foi publicada em forma de tablóide suplementar no Jornal Estado de Minas no ano de 1928. Esta revista, sob sua responsabilidade e dos companheiros Aquiles Vivacqua e Guilhermino César. Foi com a publicação de “Leite Criôlo” que João Dornas Filho tornou-se conhecido no circuito nacional, visto que seus trabalhos de pesquisa histórica já o tornava respeitado nos meios univer-sitários.


(...)  por unanimidade, a eleição para a Academia Mineira de Letras em 1945, onde ocupou a cadeira nº 12, cujo patrono era o inconfidente Ignácio José de Alvarenga Peixoto (1744-1793), e o fundador Carlindo Lelis (1879-1945).

 


(...) João Dornas Filho casou-se com Efigência Ondina Xavier, carinhosamente chamada de “Rolinha”. O casal não deixou descendentes. Segundo D. Suzana Dornas, Efigência era muito ciumenta, o que foi motivo de desentendimentos entre o casal, principalmente pela vida de “boemia”, típica dos escritores modernistas. (...)


João Dornas Filho faleceu em Belo Horizonte aos 11 de dezembro de 1962, com 60 anos de idade. Uma vida tolhida em tenra idade, mas suficiente para ser conhecido e agraciado por amigos leais e fiéis. (...)

Cabe a mim, como fundador desta cadeira, a missão não só de tornar conhecido sua produção literária, mas de incentivar estudos e pesquisas sobre os modernistas mineiros, principalmente aqueles que não têm expressão, mas que foram de qualidades indiscutíveis.

FOLCLORE DOS GARIMPOS

João Dornas Filho

Da região do rio das Garças e do rio Araguaia recebeu o autor algumas peças de valor etnográfico, qual sejam os "abc" que contam a vida do garimpo do alto sertão goiano. O que, aqui, reproduzimos é assinado por Otávio J. de Oliveira.

Ei-lo:

Araguaia é um rio rico
Porém de muita importância
Contará com o prejuízo
Quem fizer fiança
Gente que muito abraça
Quando é no fim pouco alcança

Bastantes almofadinhas
Que lá estão iludidos
Estão tocando escafandro
Já todos esmorecidos
Pelo que estou vendo
Seus cálculos saem perdidos

Coitados dos bamburristas
De lá nos anos passados
Pensavam que este ano
Os bamburros eram dobrados
Mas agora eles estão vendo
Que todos estavam enganados

Diamante tem o tempo
Ele não sai assim à toa
Se ele fosse inacabável
Isto era uma vida boa
Porém com mais ambição
Parace que ele avoa

Eu até hoje me lembro
Que no garimpo do Poço
Ninguém queimava cascalho
Pegava diamante grosso
O fato bem pensado
Isto era um colosso

Fizeram um grande alarme
Pelo Brasil inteiro
Diziam que trabalhando
No canal faziam dinheiro
O Araguaia abalou
Até país estrangeiro

Grande número de gente
Que lá este ano ajuntou
Se alguém lá fez dinheiro
O mais tudo se encravou
Lá morreu um canalista
Que até o capacete ficou

Havia lá muitos homens
Bem poucos que mergulhava
A influência era tanta
Porém não atacava
Tinha gosto de vestir
Mas nem o capacete molhava

Isto era perigoso
Quem tinha medo tinha razão
Quando uma máquina encravava
O mergulhador não tinha salvação
Logo ele saía morto
Arrastado pela mão

Já o povo se assustava
Viviam só em aflição
Logo corria dizendo
Ali tem naufragação
Só quem salvava era Deus
Se tivesse compaixão

Cada vez que uma máquina
estava tocando encravava
Este no dizer do povo
O mergulhador não se salvava
Logo o mangueiro
Nos emburrado enroscava

Lá o primeiro desastre
Que aconteceu este ano
Foi uma máquina encravada
Com um mergulhador baiano
Já o rapaz estava morto
Quandoo tirou pelo cano

Morreu também um alemão
Com desculpa de congestionado
O que é certo quando viram
Já ele tinha rodado
Embaraçou-se com o outro
Que estava do outro lado

No espaço de pouco tempo
Logo outro alemão morreu
Este ficou congestionado
Pelo aspecto pareceu
Quando ele foi tirado
Logo as unhas empreteceu

O povo não se incomodam
No dia foi para o serviço
Este pobre que morreu
Só se achou com um patrício
Para levar ao cemitério
Foi um grande sacrifício

Pois neste mesmo dia
Que este foi sequetado
Quando foi ao meio-dia
Tinha um embaraço
Não havia meio de tirar
Aquele pobre coitado

Quando passou dezoito dias
Foi que o cadavel boiou
Foi caso muito sério
Que preso o capacete ficou
Isto foi visto por todos
Que todos admirou

Rio bravo como este
No mundo não há igual
Daí passou poucos dias
Morreu outro no caudal
O Araguaia este ano
Vai causar um grande mal

Se o Araguaia fosse manso
Não tivesse correnteza
Podia-se facilmente
Descobrir sua riqueza
Araguaia é um rio rico
Bem rico de natureza

Também lá tem o rebojo
Que este muito atrapalha
É com muito sacrifício
Que o mergulhador trabalha
A influência este ano
Foi como fogo de palha

Uns escafandristas este ano
Que lá não fizeram nada
Estão todos esburacados
Isto é uma vida encravada
Esperando o rio encher
Estão todos de arriba

Vai servir de grande exemplo
Para os capitalistas
Pensavam por ter dinheiro
Eles eram bamburristas
Ele só dava valor
Mergulhador canalista

Xegava tanto escafandro
Coisa de admirar
A mancha velha
Todos iam visitar
Iam tirando entulho
Até desacuçar

Isto era um comunismo
Serviço ninguém reparava
Aonde um descobrisse
Os outros todos encostava
Só na praia do bamburro
Que eles lá respeitava

Zoiando lá os serviços
Para ninguém não entrar
Tinha muito diamante
Para eles só pegar
Tinha fuzil encostado
Para quem quiser teimar

— O til é letra do fim
Porém de muito valor
Esta serve de exemplo
No Araguaia eu mais não vou
Garimpo do Araguaia
Para mim já se acabou

Poço do rio Araguaia, 12 de outubro de 1928

Como se viu pelo desenvolvimento da xácara sertaneja, inúmeros elementos etnográficos contêm a sua contextura, e peças como esta precisam ser recolhidas cuidadosamente para o posterior exame dos entendidos.

(Do Diário de Minas, Belo Horizonte, 15 de novembro de 1950)

Fotografia de Família

Rara foto mostra a família de João Dornas, pai de João Dornas Filho, poucos anos antes de 1920.  Dornas Filho aparece de terno ao lado de uma de suas irmãs e de sua mãe  - Arquivo Jornal Via Fanzine de Itaúna.