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A Faculdade de Pará de Minas realiza estudo da obra de João Dornas Filho. Em contrapartida convidamos a todos os interessados para colocar em sua agenda o VESTIBULAR DE INVERNO 2008 DA FACULDADE DE PARÁ DE MINAS, dia 27/07. Vagas para os cursos de DIREITO, ENFERMAGEM e NUTRIÇÃO. Entre em contato pelo site da FAPAM www.fapam.edu.br
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criado por Fonte Boa
17:39:27FILHO, João Dornas. Eferméredes Itaúnense. Col. Vila Rica. Edições João Calazans, 1951, pág. 33-34
2 de Março
1911 – Nasce o Sr. Dario Guimarães Camargos, filho do Sr. Osório Camargos e sua sra. D. Dagmar Guimarães Camargos. Formado em odontologia pela Universidade de Minas Gerais em 1934. Casado com a Sr. Luiza Fonseca Camargos.
1913 – Nasce o sr. Dr. Mozart Smith Camargos, filho do Sr. Osório Camargos e sua sra. D. Dagmar Guimarães Camargos. Bacharel em Direito pela Universidade de Minas Gerais em 1936. Casado com Sra. Elza Ingênito Camargos.
1919 – Inaugura-se solenemente o Clube Itaunense em prédio próprio na rua Silva Jardim.
3 de Março
1946 – Falece a sra. Marai Laurinda Nogueira, viúva do sr. Orisimbo Caetano Moreira. Nascera a 3 de julho de 1878.
4 de Março
1917 – Inaugura-se festivamente o novo edifício da estação da Estada de Ferro Oeste de Minas, construída na administração do engenheiro Agostinho Pôrto, que presidiu às solenidades.
1922 – Realizado o primeiro sepultamento no novo Cemitério Municipal com o cadáver da sra. Anita Nogueira Machado.
1946 – Falece o sr. Pedro Artur de Souza Coutinho, funcionário aposentado dos Correios de Belo Horizonte e pai do sr. Dr. Antônio de Lima Coutinho, cirurgião da Casa de Caridade “Manuel Gonçalves” e ex-prefeito municipal.
5 de Março
1878 – Nasce a sra. Ana Gonçalves de Souza Lima, filha do Cel. Manuel José de Souza Moreira e sua esposa. Casou-se em setembro de 1894 com o sr. Cel. João de Cerqueira Lima.
6 de Março
1927 – Nasce o sr. Dr. Heli Gonçalves de Souza, filho do sr. Godofredo Gonçalves de Souza e sua senhora Ivolina Gonçalves de Souza. Bacharel em Direito pela Universidade de Minas Gerais em dezembro de 1950.
7 de Março
1900 – Falece o tenente-coronel Zacarias Ribeiro de Camargos, fazendeiro e capitalista, deixando numera desendência.
09 de Março
1936 – Falece no distrito de Cajurú o Padre José Alexandre de Mendonça, que paroquiou a freguezia desde 1889.

criado por Fonte Boa
15:42:57João Dornas Filho
– 1 –
— Maria Rosa! Ó, Maria Rosa!
— Oi!
— Vamos se banhar no rio?
— Vamos. Deixa só eu lavar os pratos da janta, viu?
—Viu. Mas hoje nós vamos se banhar pelado outra vez...
Era o Joaquim da botica que a chamava na cerca da horta. Todas as tardes, quando o mormaço crescia, iam os dois se banhar no rio que corre sonolentamente em Itacoára.
E quem passava na estrada e os via muito agarradinho dentro d’água, muchocheava:
— Quem herda, não furta!...
– 2 –
Diziam isso por causa da mãe de Maria Rosa. Foi a mulher mais falada da vila. Morena bonita, fresca, muito alegre. Cantadeira de moda estava ali.
Pobrezinha da Maria Rosa! Como não haverá de ter saído assim? A Inhana parece que tinha o capeta no corpo!
Contam até que uma vez o filho de um fazendeiro ricaço quis se casar com ela, e sondou o pai:
— O Lorindo têm uma cachorrinha de ano e meio que é uma sonsa pra caçar. O pai, a mãe, as irmãs, todos iam na catinga do bicho como se fosse pra missa e ela ainda nem diferencia um veado de um cabrito. O senhor acha que ela vem a caçar?
O velho coçou a barba, pensativo. E depois:
— Si é de raça veadeira, pode está descansado que ele vem a caçar. Está na massa do sangue...
O moço desistiu do casamento.
– 3 –
— Seu Chico, seu Chico! O senhor precisa deixar de beber desse jeito, homem de Deus! Assim, isso não pode ir pra frente, caramba! A igreja anda que nem um chiqueiro, Deus me perdoe! Vê aquele São Benedito como está ruço de poeira! Ainda ontem descobri uma ninhada de rato na barriga do Senhor Morto, seu Chico! É um horror, criatura de Cristo, é um horror!
Há vinte e cinco anos que o padre Batista falava assim com o pai de Maria Rosa.
As calças amarradas por baixo da barriga estufada, o olhar sem força nadando eternamente numa água que lhe escorria da pálpebra, o sacristão de Santana de Itacoára nunca na sua vida deixou de estourar na venda do Salim Turco a sua magra renda diária.
Quando o cel. Liberato adoeceu pra morrer, seu Chico chamou de parte o Salim e pediu-lhe que lhe vendesse uma garrafa de pingo “por conta do enterro do seu coronel, porque desta ele não escapa mesmo”...
Foram desse feitio os pais de Maria Rosa. Cresceu sozinha, nadando no rio com os moleques e levando pancadas incríveis do pai, que voltava para casa invariavelmente bêbedo.
E aquela afeição do Joaquim da botica, aquela dedicação de pombo manso, aquela maneira assustada pelo receio de ofendê-la, adoçava-lhe o coração. Maria Rosa não estava acostumada com isso...
Gostava de falar-lhe sempre, de estar junto dele, e no banho, quando Joaquim a rodeava, nuinho como nasceu, Maria Rosa sentia um arrepio esquisito pelo corpo, que não sabia explicar.
Muitos anos correram assim, nesse idílio ingênuo e selvagem, sempre se encontrando e sempre se querendo.
Por ser o Joaquim um enjeitado, o beatério da vila dizia, com nojo:
— Tão bão é a tampa como o baláio!...
Cresceram ambos, e quando o cabeção da camisa de Maria Rosa começou a empinar, Joaquim pediu-lhe, muito humilde, que deixasse de se banhar no rio.
E ela obedeceu. O rapaz, apesar da sua timidez assustada, exercia sobre ela uma ascendência compassiva e amiga, e um desejo do Joaquim era para ela uma ordem gostosa a cumprir.
E uma tarde, no terreiro, quando as galinhas se recolhiam cacarejando alto, ele apertou-a muito no peito e perguntou:
— Maria Rosa, ocê me quer bem?
Ela abaixou os olhos, ruborizada, e duas lágrimas encharcaram-lhe as pestanas.
Dois meses depois estavam casados.
– 4 –
O dr. Lobão, boticário que criara o Joaquim, não queria esse casamento, talvez porque fosse necessário fazer um ordenado ao rapaz. Desculpava-se dizendo que aquela rapariga não era dos melhores troncos da vila. “Cláudica, filho, cláudica!”
Era a cabeça mais clara de Santana. Lia muito o Camilo Castelo Branco e tinha longa prática de farmácia.
Certa vez apareceu-lhe um homem querendo comprar um remédio, mas havia esquecido o nome. Só sabia que para pronunciá-lo tinha de bater duas vezes a ponta da língua no céu da boca.
— Opodeldoc! — concluiu o dr. Lobão com o dedo espetado.
– 5 –
Duas crianças, aqueles dois! Quando o Joaquim ia almoçar, Maria Rosa tinha sempre uma surpresa infantil para agradá-lo. Umas vezes escondia-se, e ficava o sonso a gritar pela horta. Outras, metia-se atrás da porta e, quando ele ia passando, tapava-lhe os olhos e mandava adivinhar...
Comiam abraçadinhos, trocando garfadas de comida. Apostavam quem bebia água mais depressa, e trocavam beijos estalados e beliscões de mamparra...
Quem havia de dizer que a filha da Inhana desse tão boa dona de casa!
– 6 –
Um belo dia chegou à vila um gavião sob a forma de bacharel.
Maneiroso, conversador, caráter de brilhantina de barbeiro, conseguiu em pouco tempo o que ambicionava desde a Academia: fazer um casamento rico. A vítima foi a filha do cel. Veridiano. Feia, analfabeta e muito soberba, a tola.
Maria Rosa, no prestígio de uma mocidade exuberante, não tardou em esquentar o sangue do dr. Carlinhos, que lhe dizia frases de “Hermengarda”, cometia versos líricos e lhe mandava balas de açúcar.
Um moço da vila, sabendo que o bacharel passava noites inteiras jogando víspora com o Joaquim e a Maria Rosa, sem contudo ir alem disso por medo ao marido, fez-lhe uma carta anônima dizendo que “o dr. Carlinhos até parece com aquele homem que morreu de sede dentro do rio e não bebeu água só porque o rio não era dele...”
Em vista da carta, o bacharel tomou brios. Questão de dignidade. Fazia-lhe serenatas longorosas, dava-lhe romances canalhas, acordava-lhe aos poucos a brasa dormida da hereditariedade com estampas obscenas e anedotas picantes.
Maria Rosa lutou muito, entre o amor do Joaquim e a atavismo fatal que a vencia. Chorou muito, pediu muito à Senhora do Socorro que a valesse, que afastasse do seu coração esses maus sentimentos.
O Joaquim se inquietava com a mudança da mulher. De gênio alegre e expansivo, tornou-se sombria, monossilábica, irritadiça.
E o doutor apertava o cerco. Falava-lhe de personagens dos romances que lhe emprestara, em que a aventura de um amor ilegítimo aparecia como a libertação de um afeto submetido a estola e juiz de paz. E a sensação dos imprevisto e do perigo? E os minutos de prazer pecaminoso, em que o amor aparece redimindo e perdoando?
Ela era romântica, a brasa dormida acordou e fez chama. E Maria Rosa caiu.
Era de raça...
continua....

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10:54:30Continuação....
– 7 –
Depois que todo o mundo já sabia de tudo, foi que o Joaquim recebeu uma carta anônima, com um veado desenhado no alto. Dizia isso:
“A sua mulher anda te enganando. O dr. Carlinhos diz que você não passa mais a porta de uma folha só.
— Seria possível, meu Deus!
– 8 –
Era possível, sim. Um atavismo monstruoso de devassidão e alcoolismo não perdoou Maria Rosa. E ela se vergou e caiu, arrebatada por uma força estanha, feito uma folha caída na corrente.
Joaquim sofreu muito. Como que havia perdido o centro da gravidade. A casa, que lher era doce e macia como uma polpa de angá, tornou-se-lhe insuportável. A cama lhe queimava. O quarto, que era antes o reduto da sua felicidade, tinha uma cilada em cada canto.
E Maria Rosa também sofria. Andava esquiva, os olhos pisados de dôr, tinha vergonha até da sombra.
O marido, como si respeitasse a dôr que estalou o coração da esposa, e para supremo castigo, mudou apenas de quarto. Naquela cama não cabia mais tão grande infortúnio.
E, nessa silenciosa vingança, seria menos cruel si a tivesse matado. Os ligeiros minutos que se demorava em casa eram de tão grande tortura para ambos, que melhor seria estar sempre pelas ruas. Eram sufocantemente silenciosas as refeições que faziam juntos.
E toda a vila, clamando de rancorosa satisfação por mais um acontecimento a comentar, repetia, esfregando as mãos:
— Quem herda, não furta!...
– 9 –
Joaquim, como um afogado que se lança a uma última taboa, entregou-se ao álcool. Bebia noite e noites seguidas. E quando os botequins se fechavam, levava sempre no bolso uma garrafa, para esperar a manhã.
Andava pelas ruas adormecidas cambaleando e rosnando baixo. Aos rumores vagos da noite respondia com injurias medonhas, atirando pedras furiosas às corujas que se riam dele.
— Stá rindo de que, suas p...? Vá rir da sua mãe, ouviu bem?!
Era o delirio.
Si algum cão vagabundo surgia, encolhendo-se às paredes, o rabo entre as pernas, Joaquim berrava estuporado, arregalando os olhos como si visse uma assombração horrível.
E o vilarejo, que acordava noite morta com as suas trágicas tropelias, reclamava com ódio:
— Isso não pode continuar. O delegado precisa tomar uma providência. Que inferno! Ninguém pode mais dormir, simplesmente porque um vagabundo não soube guardar a mulher! Gente pobre não tem honra, essa é boa!
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A maior desgraça de um desgraçado é a vaia da molecada. E a vaia também chegou:
— Corta-pinga!
— Joaquim doido!
— A caixa dágua pegou fogo, curraleiro!
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Mas, a revolta também chegou. Surda, concentrada, rilhando os dentes como caetitú acuado.
Aproveitando a ausência do dr. Carlinhos, Joaquim penetrou, uma noite, na sua casa adormecida, amordaçou-lhe a mulher, que estava grávida, e aparou-lhe rente, como um rancor silencioso, os bicos dos seios.
— Estes peitos não hão de criar outro bandido como aquele!
E caiu no mundo.
– 12 –
Só, odiada, órfã de tudo, abandonada pelo marido de quem não tinha notícias, Maria Rosa desceu mais um degrau.
Moça, formosa e requestada, o destino engodou-a com uma anos de vida fácil. Esbanjou a mocidade com um milionário esbanja a fortuna nos últimos dias de vida.
Mas, não tardou o declínio. Vendeu todos os encantos que possuía, e a miséria chegou. Veio a forme. Vieram as doenças. E a boca do arraial por cima, a injuriá-la, a cuspi-la.
Desceu à sarjeta. Os cães, mais hábeis do que ela, ficavam com os melhores ossos. E furtou. Para o estomago não há lei nem propriedade. Foi presa. Espancada. Não podia esmolar, porque o padre declarou excomungado que a socorresse.
— É o demônio! — berrava na prática da missa. E quem a socorrer, está alimentando o pecado!
E ela, que nunca esquecera o Joaquim, batia no peito alagado de lágrimas.
— Minha culpa! Minha culpa!
– 13 –
Joaquim, tangido pelo grande vento da desgraça, rodopiou pelo mundo como folha morta.
Andou como um judeu, viu outras desgraças como a sua e compreendeu, já vencido, que só a resignação é o grande abrigo maternal contra as dores do mundo.
O que é a dor senão uma contingência irrevogável de todos os seres do Universo? O açúcar, que nos adoça a boca na alegria e na doença, vem da tortura triturada de outra vida nos engenhos de ferro. A cama em que nascemos, em que descansamos das fadigas e das desilusões, e que nos recebe para o grande sono do esquecimento — foi árvore, viveu, deu sombra e fruto aos homens, abrigou ninhos e alvoradas...
E a figura de Maria Rosa, bela e sofredora, cresceu-lhe de novo no coração reflorido. Apareceu-lhe à imaginação erguendo os braços convulsos para o alto, para o mistério indecifrável das nuvens que, por não se ter revelado mesmo, é o lugar para o qual ainda se voltam todas as esperanças.
Ela sofria muito, por certo. Mais do que ele, porque talvez não tivesse atingido essa confortadora e tranqüila resignação.
Ela não o compreendeu, mas que importa? Infeliciou-o apenas aos olhos egoístas dos homens, que ditam leis para o coração quando o coração é livre como os vendavais. Que importa que a sociedade o considere um desgraçado, si o coração dele dela não se submetem ao absurdo dessa convenção?
E alem de tudo o amor, o seu grande e desventura amor, impeli-o a voltar para os braços esfarrapados de Maria Rosa!
– 14 –
E voltou.
Encontrou-a estirada num giráo de palha, o olhar mortiço de sofrimento. Muito tempo estivera abraçados e chorando silenciosamente.
Ela falou, por fim:
— Não chore, Joaquim. Não mereço as suas lágrimas. A culpada fui eu. Não vê como os meus olhos estão enxutos? Chorei tanto, que eles não se umedecem mais!
— Não Maria Rosa. A culpa não foi de ninguém. É o que tinha de ser. Andei muito, e sofri muito também. Gastei meu corpo no sofrimento e no vício, mas o coração ainda é o mesmo, talvez até mais humano, porque purificou-se no fogo da desgraça e do ódio. Aqui estou para te amparar!
— É a bagana, Maria Rosa. É a bagana consumida e curtida, um tiquinho de cigarro. É a bagana esquecida que se arranca detrás da orelha, mas que queima melhor e é mais gostosa, porque já foi pitada e mordida. Pita, Maria Rosa. Acende e pita esta bagana apagada.
FILHO, João Dornas. Bagana Apagada in: Bagana Apagada. São Paulo: Editora Guaíra Ltda., Col. Contos - 167, 1940. pp. 10-24)

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10:48:31João Dornas Filho
É uma lenda cuja universalidade se emparelha com a sua antiguidade. O velocino de ouro, de Jasão, e a taça do Rei de Tule, legenda do tempo do Rei Artur, são assinaladas em seu jazigo pelo fogo sideral que risca o céu nas noites do Mediterrâneo e dos mares do norte. É o Santelmo.
No ocidente a lenda dos tesouros enterrados em ilhas misteirosas pelos piratas argelinos, flamengos e franceses revitalizaram a tradição da antiguidade.
No Brasil, a descoberta do ouro e dos diamantes lhe deu vida nova, corroborada pela crença dos fabulosos tesouros jesuíticos, enterrados pelos padres da Companhia, que não tiveram tempo de conduzí-los quando foi da sua expulsão.
Em Minas é a sonegação dos impostos da Coroa portuguesa que explica os tesouros enterrados, guardados pela “Mãe do Ouro”, que os indica também às pessoas que os desejam para as boas ações.
É o bólico, ou desagregação de astros, provocando a luminosidade que risca os céus principalmente nas noites de verão.
Não se deve apontá-la com o dedo, porque lhe nascem verrugas ou fica linguaruda a pessoa que o fizer.
Principalmente em Minas, região aurífera, o número de tesouros enterrados se conta quase por cada uma das cidades, vilas ou arraiais. Em Ouro Preto até nos alicerces e nas paredes de cada casa.
Em Sabará, a Igreja do Carmo está construída sobre um espantoso tesouro, que pertencera a dois irmãos, desavindos na hora da partilha. Acordaram por fim que ambos abririam mão do ouro entesourado e sobre ele se construiria a Igreja que lá está, sob a guarda da Senhora do Carmo e da “Mãe do Ouro”.
Em Belo Horizonte o tesouro está enterrado no local que hoje se chama Mangabeira. Foi enterrado por um português que o ajuntara durante vários anos, e como aumentasse sempre o metal na sua lavra, resolveu escondê-lo alí e ir a Portugal, de onde traria os irmãos para ajudá-lo na extração. Foi e nunca mais regressou.
Diz a lenda que esse tesouro está enterrado na fralda do morro, no vale do córrego do Acaba-Mundo, em frente à Igreja do Boa Viagem. Esta igreja era então voltada para o sul.
Mas, a “Mãe do Ouro” não indica apenas os tesouros sonegados. Ela anuncia também as desgraças, as guerras, as pestes, as más colheitas. As crônicas jesuíticas, que são o mais opulento tesouro de superstições e milagres da nossa História, estão cheias de casos em que a “Mãe do Ouro” denuncia a proximidade das catástrofes e dos acontecimentos sobrenaturais, das pestes e das guerras.
Na serra da Moeda, proximidades de Belo Horizonte, a “Mae do Ouro” tem a forma de uma cobra — a “Cobra Serepente”.
(FILHO, João Dornas. O ouro das Gerais e a civilização da Capitania. São Paulo: Companhia Editoria Nacional, 1957, Coleção Brasiliana, vol. 293, nota 23, pág. 46-47)

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